A ternura e a essência infantis


O universo infantil é visivelmente maravilhoso e encantador, como podemos notar ao nos envolver, seja em brincadeiras ou na convivência diária, com os pequenos seres que o compõem, ou  até lendo contos como os dos Irmãos Grimm, tão cheios de simbolismo.

Esses pequenos seres, puros e simples que são, às vezes nos impressionam pela maturidade que apresentam, não com palavras, mas sim com atitudes. Eles não têm idade nem compreensão o suficiente para usar de palavras e metáforas, contudo são sensíveis e abertos de um modo que nós adultos já não podemos mais ser, por já estarmos há muito tempo mergulhados na complexidade e na artificialidade da sociedade em que vivemos, tão cheia de regras e tabus.

Nós deveríamos olhar para as crianças como possibilidades que nos aparecem de modo a nos dar uma chance de resgatar pelo menos um pouco da pureza há tanto maculada pelos nossos egos desejosos de poder e status. E não só isso. A forma pura e sincera por meio da qual elas se expressam também demonstra a sua postura em relação ao mundo. Se elas encaram tudo de maneira tão simples e óbvia, então por que não fazemos o mesmo? Penso até que a vida urbana, coletiva e moderna poderia ser mais leve, com menos estresse, se cada indivíduo se focasse em encarar as situações com mais simplicidade e objetividade, qualidades hoje ignoradas, deixadas às moscas.

Agora contar-lhes-ei uma história muito preciosa, cheia de simbolismos sutis e detalhes pouco perceptíveis aos menos atentos. Prestem muita atenção nela, pois vocês não lerão outra parecida. Essa é única e memorável, assim como a personagem que dela é a estrela. Personagem essa que toca a todos os que com ela têm contato, e o faz de tal forma que deixa marcas profundas e inapagáveis em seus corações.

Raphael. Guardem esse nome. Tem dois anos de idade. Tem dois irmãos muito amorosos. Pais muito afetivos e responsáveis. Dono de uma das feições mais impressionantes e enigmáticas que eu já vi. Olhos negros, densos, profundos e duros como uma rocha que resiste à força da maré. Cabelos loiros bem claros e lisos. Bochechas macias como algodão. Pequeno para a própria idade. Fala pouco e observa muito. E pra terminar a descrição básica, é dono de m sorriso daqueles tão espontâneos que nos dá a idéia de felicidade em estado bruto, utópica.

Com isso espero ter dado uma idéia melhor de quem é esse pequeno tesouro guardado e bem protegido pelos pais.

Eu já desde o início me surpreendi com ele. Primeiramente pela sua espontaneidade, e posteriormente, à medida que o fui conhecendo, pela sua expressão facial complexa e cheia de mistérios. Ele definitivamente não é uma criança normal. O pequeno Raphael é extremamente observador, atento ao que o cerca, ciente das pessoas que se envolvem com ele e das atitudes das mesmas. Ele nunca se abre pra alguém, não permitindo nem mesmo um sorriso, antes dele confiar e se sintir à vontade com a pessoa. Pode parecer frieza agir assim, mas no fundo é uma maneira inteligente de se relacionar, principalmente quando se tem três anos de idade e total abertura emocional.

O anjinho me mostrou mais do que confiança e amizade. Com ele eu pude perceber que as crianças também podem ser fonte de grandes e profundos aprendizados. Eu não o ouvia falar muito, e na verdade ele não tinha habilidade suficiente pra se expressar por meio de frases ainda. Eram só palavras soltas. Todavia, o seu olhar, com aquelas “bolas negras” (olhos), dizia tudo e até um pouco mais. Trocar um olhar com ele era como encarar o infinito, e o que me trazia de volta à realidade era o seu sorriso. Ah! Quem me dera poder sorrir daquele jeito. Mas, melhor do que sorrir à moda dele, era admirar e sentir a alegria transbordar em mim quando tocado por tão tenra expressão de felicidade. Cada vez que ele sorria, ou dava gargalhadas eu sentia vontade de rir e chorar até não agüentar mais. É impossível esquecer dos momentos com ele, por que além de terem feito eu me sentir vivo e radiante, eles também tem um caráter atemporal. Eu digo isso porque tais momentos são tão presentes em mim, integrados à minha visão e compreensão do mundo, como se só existisse aquilo que é real, vivo dentro de nós, sem contar com o passado ou futuro, e a nossa capacidade de acessarmos essas informações quando quisermos significa que esses sentimentos e sensações são eternos e atemporais dentro de nós.

Esse garoto se tornou em alguns meses tanto o meu melhor amigo como meu mais fiel companheiro de vida. Uma troca de olhares ou um passeio com ele me valia mais do que a maioria das pessoas seria capaz de me dar. O tempo parecia não passar quando íamos à beira do lago, sentávamos no píer e apreciávamos os pássaros, os veleiros e a bela paisagem montanhosa ao nosso redor. Ele estava sempre disposto a dar esses passeios. De vez em quando levávamos alguma fruta para jogar aos patos, e é claro que ele adorava. Parecia irradiar felicidade, como se alimentar os pássaros fosse mais grandioso e gratificante do que ganhar um brinquedo novo.

É por isso que eu digo para prestarmos atenção a esses pequenos grandes seres. Ele tinha um grande senso de dever. Se você lhe pedisse algo, mesmo que fosse para ser feito uma semana depois, ele o lembrava e fazia. Eu tinha o hábito de “trocar figurinhas” com ele, ou seja, eu fazia algo por ele, e ele retribuía. Um exemplo disso: à noite eu pedia a ele para me acordar no dia seguinte, e ele ia lá no meu quarto de manhã, abria a porta sozinho, vinha me dar um beijo no rosto e dizia: “Pipipi, acorda!”. Entretanto, antes que eu fizesse o meu pedido, eu o massageava. Ele tinha, e talvez ainda tenha, um problema de coluna, e isso me deixava na obrigação de massageá-lo todas as noites antes dele dormir. Era uma situação feliz e triste ao mesmo tempo. Não obstante, ela me levava a querer agradá-lo sempre, de modo a amenizar a sua dor.

Raphael. Guardem esse nome! Um menino que ama a natureza, os animais, a beleza das coisas, os momentos com as pessoas queridas e o mais importante: ser criança. Um pequeno grande garoto, que conquistou a minha amizade e o meu respeito.

Eu já viajei muito, inclusive pela Europa, conhecendo uma grande quantidade de pessoas, me envolvendo e aprendendo com elas. Porém, nenhuma conseguiu se aproximar de mim como o pequenino fez. E nenhuma jamais chegou a ocupar, no meu coração e mente, a posição de destaque e importância que ele ocupa. Nunca me ocorreu de chorar de saudades por ele. Não há porque fazer isso. Ele se tornou parte de mim, por meio da sua personalidade, carisma, presença de espírito e companheirismo.

Sempre que vejo as suas fotos, tiradas por mim com tanto empenho e dedicação me sinto feliz, iluminado por ele. É difícil explicar com palavras o que ele é para mim, pois as palavras são somente uma representação das coisas, sem relação com a essências das mesmas, e ele tem algo na própria essência que, só convivendo na mesma casa, eu pude então perceber e admirar. É mais fácil notar a verdade que há numa criança, uma vez que elas são muito abertas e frágeis. É preciso até tomar cuidado, pois podemos causar danos irreparáveis a esses pequeninos tão puros.

Se envolver no mundo infantil é mágico e enriquecedor, além de ter momentos em que sentimos tanto dó de ver um ser tão delicado chorar, que temos que nos segurar! Descubram esse mundo, pois neles há muitos Raphaéis, ansiosos por guiá-los pelas veredas e caminhos infinitos desse jardim chamado INFÂNCIA.

Texto baseado nos dez meses em que vivi com o Raphael, uma criança que foi capaz de mudar uma vida: a minha.

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One Response to A ternura e a essência infantis

  1. Josy Lima says:

    Linda vivência, momentos únicos e inesquecíveis. Não é a toa você ser tão encantador.

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